
Quando pensamos no envelhecimento, a saúde física é uma das principais preocupações. Fala-se de como evitar quedas, gerir a medicação ou manter o corpo e o cérebro ativos. Mas há um problema que afeta milhões de idosos em silêncio e que tem consequências igualmente sérias para a saúde: a solidão.
Em Portugal, mais de meio milhão de idosos vivem sozinhos. E esta solidão não afeta apenas quem não tem companhia, mas também quem se sente desligado das pessoas, da sua rotina e propósito.
A solidão é um problema emocional - mas também de saúde
Num mundo com guerras, alterações climáticas e tantas outras situações mais urgentes, a solidão pode passar despercebida. É silenciosa e discreta, mas existe e é também uma questão de saúde.
Um estudo da CINTESIS, em parceria com a ARS Norte, revelou que 91% dos idosos seguidos em cuidados de saúde primários revelam sentir algum grau de solidão, e um terço reporta níveis graves.
Depressão, ansiedade, declínio cognitivo acelerado, agravamento de doenças crónicas e aumento do consumo de medicamentos e de visitas ao médico são algumas das consequências de quem se sente só.
Portugal é o sexto país da União Europeia onde o sentimento de solidão mais aumentou nos últimos anos.
Porque é que a solidão aumenta com a idade?
Habitualmente, é uma junção de vários fatores:
Morte do cônjuge ou de amigos próximos
Este é o fator mais frequentemente associado à solidão em idosos. A perda do companheiro de vida altera profundamente a estrutura emocional e social do dia a dia.
Afastamento progressivo da família
Filhos que moram longe, rotinas sobrecarregadas e visitas cada vez menos frequentes. Ainda que não exista propriamente um abandono, este afastamento é real e notado.
Perda de autonomia
Quando a mobilidade diminui, as saídas tornam-se mais difíceis e a logística aumenta. A dependência de outros para tarefas simples pode gerar vergonha e isolamento progressivo. Não é fácil lidar com a sensação de já não conseguirmos fazer tudo sozinhos.
Reforma
A saída do mercado de trabalho retira propósito, estrutura, rotina e um espaço de contacto social diário que muitas pessoas subestimam até o perder.
Dificuldades económicas
Que reduzem a participação em atividades, saídas e convívios.
Sinais a que deve estar atento
A solidão nem sempre se manifesta de forma óbvia. Alguns sinais que merecem atenção:
Menos interesse em atividades que antes davam prazer
Conversas mais curtas e menos frequentes
Referências frequentes ao passado e às pessoas que já não estão
Aumento do consumo de medicamentos ou visitas ao médico sem causa aparente
Tristeza persistente ou apatia no dia a dia
O que fazer?
Manter contacto regular
Não precisa de ser sempre presencial, pode ser uma chamada diária, uma mensagem, uma visita semanal. Mais do que a duração, importa a regularidade.
Envolver o familiar em decisões e rotinas familiares
Sentir-se útil e incluído é um antídoto poderoso para a solidão. Algo como pedir uma opinião, partilhar uma notícia ou incluir a pessoa nas decisões do dia a dia são gestos simples com um impacto real.
Incentivar a participação em centros de dia ou atividades comunitárias
Os centros de dia não são apenas um serviço de cuidado, são também espaços de convívio, estimulação e pertença, que quebram o isolamento de forma estruturada.
Considerar apoio domiciliário
Além do cuidado prático, o apoio domiciliário traz presença e companhia ao dia a dia, e é especialmente importante para quem vive sozinho.
Falar com o médico de família
A solidão é também um problema de saúde. Se os sinais são persistentes, o médico de família pode avaliar, referenciar e sugerir apoios adequados.
Esteja atento a quem o rodeia
Preste atenção a quem o rodeia. Por vezes, uma conversa de 2 ou 3 minutos ou um recado rápido pode mudar o dia daquele vizinho que mora sozinho e que sente que ninguém se preocupa. É importante, enquanto comunidade, estarmos atentos uns aos outros.
O papel da família
A solidão nos idosos é, muitas vezes, um sinal de que o modelo de cuidado atual já não é suficiente. Não é por falta de amor, mas porque a vida muda, as distâncias aumentam e as necessidades evoluem com a idade.
Reconhecer isto não é falhar, mas uma oportunidade de organizar um apoio que funciona e responde às necessidades de todos.
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